Em defesa de São Tomé

Tomé não estava com eles quando Jesus apareceu. Os discípulos contaram a ele: - 'Nós vimos o Senhor'. Mas ele respondeu: - 'A não ser que eu veja os buracos dos cravos em suas mãos, coloque o dedo neles e toque seu lado, não vou acreditar'

Posted by Fellipe Brito on March 4, 2018

Cético desde o princípio

Tomé foi um dos doze discípulos de Jesus, e, mesmo que seu conhecimento sobre a literatura cristã seja pequeno você provavelmente já ouviu a frase: “Fulano é feito São Tomé: Precisa ver para crer”. Esta é a maneira com que Tomé é mais lembrado: O discípulo descrente.

Antes mesmo de Tomé duvidar da ressurreição, os relatos já deixam claro que ele não era um homem que aceitava qualquer tipo de explicação. Veja por exemplo este pedaço do relato de uma conversa entre os discípulos e Jesus.

Continuando a conversa, Jesus disse: - “Não se aflijam, confiem em mim. Estou indo para a casa do meu pai e vou leva-los comigo.” Mas Tomé respondeu: “Senhor, não temos idéia de para onde o Senhor vai. Por que pensa que sabemos o caminho?” - João 14

Ao invés de se aceitar facilmente o que Jesus estava falando, Tomé questiona. Ele deixa claro que ou o que Jesus falou não era verdade, ou pelo menos, não fazia sentido para Tomé naquele momento. Se você, assim como eu, é daqueles que gosta de perguntar “Por que?”, pode acreditar que, ao contrário da maioria, você vai ser grato a Tomé e a sua maneira cética de enfrentar o mundo.

Não tem provas? Então, não me venha com chorumelas.

Tomé não estava com eles quando Jesus apareceu. Os discípulos contaram a ele: - “Nós vimos o Senhor”. Mas ele respondeu: - “A não ser que eu veja os buracos dos cravos em suas mãos, coloque o dedo neles e toque seu lado, não vou acreditar” João 20

Quem pode culpa-lo? Os críticos de Tomé rapidamente apontam sua obstinação e insistência de que ele não precisava apenas ver, mas também tocar. E não era suficiente para ele apenas ver o corpo de alguém parecido com Jesus. Ele queria tocar as feridas! Rapidamente seus críticos gritam: “Que cético teimoso!”

Mas pense comigo, você não fica feliz que pelo menos uma das pessoas não aceitou o boato como verdade sem nem parar para ponderar o tamanho da implicação do que estava sendo falado? Alguém que sabia valorizar provas e evidencias acima de mero sentimentalismo? Alguém que sabia que feridas como aquelas não podiam ser falsificadas e sendo assim, recusou-se a aceitar nada menos do que tocá-las?

Se você tem dificuldades para acreditar na ressurreição, você está em boa companhia. A história da ressurreição inclui muitas pessoas que duvidaram - Os amigos próximos de Jesus, seus irmãos, seus contemporâneos Gregos e Romanos e um número incontável de Judeus. Vejamos alguns exemplos nos relatos das testemunhas oculares:

Segundo o doutor Lucas, a primeira vez que os discípulos ouviram que Jesus havia ressuscitado “eles não acreditaram nas mulheres pois o que elas falavam lhes pareciam loucura” Lucas 24. Isso mesmo que você acabou de ler! Tomé não foi o único a duvidar. Todos os discípulos, ao ouvirem o relato de que Jesus ressuscitou dos mortos, acham que é bobagem, loucura das mulheres. Eles questionam. Até mesmo Pedro, que mais tarde se tornaria o líder do movimento cristão, não acreditou de cara: “… mas Pedro correu até a tumba…” Lucas 24. A resposta dele é como a minha, cética. Ele sai correndo para ver com os próprios olhos pois não aceitava acreditar naquilo que apenas os outros tinham visto.

Todos eles questionam o relato. A fé deles é testada. E as dúvidas estão apenas começando.

Veja por exemplo, como se comporta Maria Madalena, seguidora próxima de Jesus: “Maria estava do lado de fora do sepulcro, chorando. Então um dos homens perguntou a ela: ‘Mulher, por que você está chorando?’ E ela, ainda chorando, respondeu: ‘Eles levaram meu Senhor e eu não sei onde o puseram. Por favor, se você o levou me diga onde o pôs para que eu possa cuidar do seu corpo’. (João 20) O primeiro pensamento de Maria não é de que um milagre aconteceu e Jesus ressuscitou, mas de que, embora o túmulo estivesse sim vazio, a explicação mais lógica era de que alguém havia roubado o corpo.

A ressurreição era tão improvável para Maria e para os discípulos naquela época quanto ela é improvável para você hoje. Não deixe o seu preconceito taxar como primitivos e ingênuos o povo daquela época só porque você vive na era do pós iluminismo. Não se engane, mesmo que não levemos em conta a ciência da época, não haviam bases nem filosófica nem teológicas na cabeça de um judeu do primeiro século para que ele acreditasse que algúem poderia ressuscitar[1].

Segundo Lucas, alguns dos discípulos não acreditaram, mesmo após vê-lo vivo, na frente deles! “…enquanto Jesus os mostrava seus músculos e ossos bem como suas feridas nas mãos e nos pés eles não acreditaram em seus olhos e, morrendo de medo, pensaram que estavam vendo um fantasma. Eles não conseguiam acreditar no que estavam vendo.” (Lucas 24)

Perceba que em momento algum o compilador destes eventos, seja ele Lucas, Marcos ou João, tenta te obrigar a aceitar tudo que eles estão falando sem questionar. Eles são os primeiros a deixar claro que, segundo os relatos que as próprias testemunhas oculares prestaram a eles, a maioria delas tiveram certa dificuldade em aceitar o que aconteceu naqueles dias após a crucificação.


Toda história, assim como todo conhecimento, depende de testemunhos.

Históricamente falando, testemunhos são uma maneira única de se ter acesso a realidades históricas. Os evangelhos, por sua vez, são uma coleção de testemunhos. Isso não quer dizer que eles são um testemunho invés de história. Isto significa que o tipo de historiografia que eles são é testemunho.

Confiar num testemunho não é um ato irracional de fé que deixa o pensamento critico e racional de lado.

Por um momento, tente se colocar no lugar de Tomé. Se você passou os últimos 3 anos inteiros vivendo com Jesus, se voce podia reconhecer facilmente sua maneira de falar e de andar, se você achasse engraçado o seu sotaque galileu e abraçasse os seus ensinamentos. Se você tivesse visto seus milagres e testemunhado sua morte. Então de repente, você começa a ouvir de amigos próximos, nos quais você confia, que Jesus voltou da morte, provando que ele não era apenas um espirito. Será que você não iria também duvidar? Você não iria pedir uma prova? Eu com certeza iria.

Agora, coloque-se no lugar de Jesus. Você passou todo esse tempo com Tomé, investiu tudo o que tinha nele, orou sem parar por ele, falou pra ele diversas vezes a respeito da iminência da sua morte e ressurreição e aí, quando você aparece de volta, ele duvida de você. Mesmo após os outros dez discípulos terem garantido pra ele que te viram ressurrecto e que você sentou e comeu peixe com eles. Como você se comportaria? Será que sua paciência estaria esgotada? Eu me conheço, eu sei o que eu teria feito. Eu teria usado Tomé como exemplo do que não fazer, teria dado uma bronca nele e desaparecido sem usar a porta para sair.

Deus nos deu uma mente para pensar

Mas não é isso que Jesus faz. Pelo contrário. Jesus abre espaço para as dúvidas, dos discípulos primeiro, e mais tarde as de Tomé, veja o relato das testemunhas: “ele disse: Não fiquem preocupados e nem deixem que a dúvida os domine. Olhem minhas mãos. Olhem meus pés - sou eu mesmo! Toquem em mim. Examinem-me da cabeça aos pés. Um fantasma não tem músculos e ossos. - E enquanto dizia isso, mostrou a eles as mãos e os pés.” - Lucas 24; e quando dias depois ele encontrou Tomé, ele disse: “Examine minhas mãos. Toque meu lado. Creia!” - João 20

O convite de Jesus nunca foi para que você colocasse de lado seu raciocínio e desse um salto escuro. Não! Ele convida você a sentar com ele e tocá-lo. Os relatos escritos dos depoimentos das testemunhas oculares não utilizam de uma linguagem de fábula. Eles não são um épico. Não há uma tentativa de narrar um Jesus que voava, ou que vingou-se dos seus inimigos, ou que tinha o corpo magicamente curado de todas as feridas. Ou então de discípulos que não titubearam para acreditar na história. Pelo contrário, os relatos são simples - apenas narração nua e crua dos fatos.

Para aqueles que são céticos e tem dificuldade em acreditar, Jesus está pronto para ouvir suas perguntas. Se você se identifica com Tomé. Se você tem duvidas a respeito da ressurreição, você está em boa companhia. Jesus entende suas dúvidas e ele as acolhe.


[1] Muito mais informações são necessárias para corroborar a minha afirmação acima. Este texto não se propõe a ser um estudo profundo da cosmovisão Judaica no primeiro século. Ainda neste mês de Março eu vou escrever um texto sobre isso com uma extensa referencia bibliográfica para quem quiser se aprofundar melhor no assunto


Fontes: