Eu não sou um outdoor!

Eles estão em todos os lugares. Ditam o que devemos comprar, como devemos parecer e até pra onde devemos ir. Eu sempre acreditei que eles não me influenciavam e que eu era "livre". Até o dia em que precisei comprar um óculos escuro novo.

Posted by Fellipe Brito on December 26, 2015

Eu não sou um outdoor!

Eles estão em todos os lugares. Ditam o que devemos comprar, como devemos parecer e até pra onde devemos ir. Eu sempre acreditei que eles não me influenciavam e que eu era “livre”. Até o dia em que precisei comprar um óculos escuro novo.

Minha vista tem suas limitações, e nos últimos 4 anos elas chegaram a um ponto que eu não me sinto mais confortável com um óculos escuro normal. Isso além de encarecer consideravelmente o preço de um óculos pra mim, adiciona os complicadores de ter que me limitar a certos tipos de armação e lentes.

Aproveitei uma manhã de sábado, em que saímos para tomar um café da manhã, para explorar as minhas opções agora que vivia na terra do Tio Sam. Lembro de experimentar não mais que 3 óculos e já tinha minha decisão. Eu sabia o que eu queria, já estava com a prescrição no bolso e fui para o caixa pagar. Confiro os códigos, faço mais um teste rápido para confirmar o grau da minha deficiência e na hora de passar o cartão o vendedor faz o seguinte comentário: “Suas lentes devem ser entregues nos próximos 3 dias. A única diferença é que elas não terão Ray Ban escritos no canto superior esquerdo”.

Não demoraram mais que 30 segundos pra eu cancelar a compra, virar as costas e sair furioso da loja. Essa fúria transformou-se em decepção e depois em uma auto-analise profunda, que eu trago comigo até hoje.

Eu queria entender o que aconteceu. Queria me entender. Tenho me especializado nisso nos últimos anos, talvez pela solidão e escassez de amigos, mas meditação e auto-analise estão em minhas atividades prediletas.

Vim de uma família bem pobre, com muitas limitações financeiras e por toda minha infância e adolescência eu fui um dos últimos a ter as coisas. Meus amigos tiveram bolas, uniformes de futebol, videogames, tenis e outras coisas anos antes que eu tivesse os meus. Por isso quando aquele vendedor me disse que eu não podia ter um óculos, escrito Ray Ban na frente do meu olho, para que eu pudesse esfregar na cara da sociedade a minha vitória, eu fiquei muito nervoso.

Parece piada, mas eu acredito que foi isso que inconscientemente eu pensei. E, após voltar pra casa, eu comecei a observar o quanto eu era consciente ou inconscientemente parte desse sistema que dita as regras. Minha camisa com uma logo enorme da Ferrari, minha camiseta favorita escrita Abercrombie since 1892, ou Tommy Hilfiger. Eu era um outdoor dessas marcas. Carrego o nome delas e PAGO pra fazer isso.

Essas marcas cresceram assim, e eu sou uma parte importante do negócio delas, quando, além de consumir o seu produto eu contribuo para essa cultura que prega que somos melhores se nos vestimos, parecemos ou agimos da maneira X ou Y.

Pode ter sido um sinal de amadurecimento, uma revolta contra o consumismo exacerbado ou apenas uma crise de consciência. Mas depois de algum tempo pensando sobre tudo o que aconteceu eu decidi mudar algumas coisas.

Eu não compro mais travesseiros de penas de ganso por exemplo (clique aqui para ver o Motivo aqui). Eu também me recuso a comprar produtos de couro se eu não estudar a procedência antes. Tenho tentado me informar sobre o trabalho escravo também, e sobre onde estão as indústrias dos produtos que eu compro.

Este fim de ano, aproveitando as promoções e um pouco de dinheiro que separei durante o ano para isso, consegui finalmente refazer meu guarda roupa de camisetas. Juntei todas as camisetas que me tratavam como “outdoor” e coloquei para dar. Mantive as camisetas “nerds” e comprei um pacote de camisetas novas de uma loja que gosto muito. Todas com frases que eu quero carregar comigo, que fazem sentido e combinam com meu caráter. Mensagens que eu quero passar para os outros. Também estudei a história da loja, seus donos, suas fábricas. Me sinto bem vestindo a roupa deles e contribuindo para que o negócio deles prospere.

Também comprei meus óculos escuros, sem marca nenhuma escrita, mas com a prescrição que eu preciso para enxergar bem e proteger minha vista, no final das contas era isso que eu devia ter me preocupado desde o começo.

Sim, posso ouvir um discurso de que não adianta fazer isso. Mas eu sei uma outra coisa que traz ainda menos resultado: Fazer nada! - Então se eu não posso fazer tudo, pelo menos me certifico de que não estou fazendo nada.

E você, é um outdoor? E se é, qual a mensagem que você está passando?