Eu tenho um problema com a Biblia!

Eu tenho um problema com a Bíblia. Aqui está o meu problema ...

Posted by Fellipe Brito on December 11, 2017

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Eu tenho um problema com a Bíblia. Aqui está o meu problema …

Eu sou um antigo egípcio. Sou um babilônico confortável. Eu sou um romano em sua casa.

Esse é meu problema. Veja, estou tentando ler a Bíblia, mas não sou um escravo hebreu que sofre no Egito. Eu não sou um judeu conquistado e deportado para a Babilônia. Eu não sou um judeu do primeiro século que vive sob a ocupação romana.

Eu sou um cidadão de uma superpotência. Nasci entre os conquistadores. Eu vivo no império. Mas eu quero ler a Bíblia e acho que ela está falando comigo. Isto é um problema.

Uma das coisas mais notáveis da Bíblia é que nela encontramos a narrativa contada da perspectiva dos pobres, dos oprimidos, dos escravizados, dos conquistados, dos ocupados e dos derrotados. Isto é o que a torna profética. Sabemos que a história é escrita pelos vencedores. Isso é verdade - exceto no caso da Bíblia, é o contrário! Este é o fantasma subversivo dos profetas hebreus. Eles escreveram de uma perspectiva de baixo para cima.

Imagine uma história da América colonial escrita por índios Cherokee e escravos africanos. Essa seria uma maneira diferente de contar a história! E isso é o que a Bíblia faz. É a história do Egito contada pelos escravos. A história de Babilônia contada pelos exilados. A história de Roma contada pelos ocupados. E os breves momentos em que Israel parece estar no topo? Nesses casos, os profetas contaram a história de Israel da perspectiva dos camponeses pobres como uma crítica a elite real. Como quando Amos denunciou as esposas da aristocracia israelita como “as vacas gordas de Basã”.

Toda história é contada por um ponto de vista; tem um viés. O viés da Bíblia é do ponto de vista da subclasse. Mas o que acontece se perdermos de vista o ponto de vista profeticamente subversivo da Bíblia? O que acontece se aqueles em cima se colocam na história, não como Imperadores Egípcios, Babilônios e Romanos, mas como Israelitas? Bem, quando isso acontece você obtém o fenômeno estranho da elite que usou a Bíblia para endossar seu domínio como a vontade de Deus. Este é o cristianismo romano depois de Constantino. Esta é a cristandade da cruzada. Estes são os colonialistas que vêem a América como a terra prometida e os habitantes nativos como cananeus para serem conquistados. Esta é toda a história do colonialismo europeu. Este é o evangelho da prosperidade americana e herdado pelos brasileiros. Esta é a domesticação da Escritura. Isso faz com que a Bíblia dance a música que nós escolhemos tocar.

Enquanto Jesus pregava a chegada do reino de Deus, ele enfatizava freqüentemente o caráter revolucionário do reinado de Deus, dizendo: “o último será o primeiro e o primeiro último”. Como essa afirmação de Jesus nos atinge? Eu não sei sobre você, mas isso me deixa um pouco nervoso.

Imagine o seguinte cenário nos dias de hoje: uma poderosa figura carismática chega no cenário mundial e conquista muitos seguidores, anunciando a chegada de uma nova era no mundo onde aqueles que estão no fundo devem ser promovidos e os que estão no topo devem ter seu estilo de vida “reestruturado”. Como as pessoas receberiam isso? Posso imaginar os Sírios dizendo: “Podemos começar isso agora mesmo?!” e os americanos dizendo: “Espere um pouco, não vamos nos deixar levar por essa lorota!”

Agora pense em Jesus anunciando a chegada do reino de Deus com a proclamação de suas bem-aventuranças. Quando Jesus disse: “Bem-aventurados os mansos, porque herdarão a terra”, como isso foi recebido? Bem, depende de quem está ouvindo. O pobre campones galileu iria ouvi-lo como uma boa notícia (as boas novas, o evangelho), enquanto o romano em sua casa iria ouvi-lo com muita suspeita. (Eu sei que é um anacronismo, mas posso imaginar os romanos dizendo algo como “isso aí é muito parecido com socialismo para mim!”)

E esse é o desafio que enfrento na leitura da Bíblia. Eu não sou o camponês galileu. Quem eu estou tentando enganar?!? Eu sou o romano em sua casa e eu preciso ser honesto sobre isso. Eu também posso ouvir o evangelho do reino como uma boa notícia (porque é!), Mas primeiro eu preciso admitir sua natureza radical e não tentar domar isso para endossar meu direitos.

Eu sou um homem branco, na América e (relativamente) rico. Isso está bem bem, mas significa que eu tenho que me esforçar para ler a Bíblia corretamente. Eu tenho que me ver basicamente alinhado com Faraó, Nabucodonosor e César. Nesse caso, o que a Bíblia pede de mim? Pobreza voluntária? Não necessariamente. Mas certamente a Bíblia me chama a profunda humildade - uma humildade demonstrada em hospitalidade e generosidade. Não há nada necessariamente errado em ser um homem “norte-“americano branco e relativamente bom, mas é melhor ser humilde, hospitaleiro e generoso!

Se eu leio a Bíblia com a perspectiva e a humildade adequadas, não uso a história do Homem Rico e do Lázaro como um texto que me ajude condenar os outros ao inferno. Eu uso isso como um lembrete de que sou um homem rico e Lázaro está à minha porta. Não uso as narrativas da conquista de Josué para justificar a Doutrina do Destino Manifesto. Em vez disso, vejo-me como um Raabe que precisa receber os recém-chegados. Eu não me comparo como Elias invocando fogo do céu. Eu sou mais como Nabucodonosor, que precisa se humilhar para não ficar louco.

Tenho um problema com a Bíblia, mas nem tudo não está perdido. Preciso mudar minha perspectiva. Se eu aceitar que a Bíblia está tentando levantar aqueles que são diferentes de mim, então talvez eu possa ler a Bíblia corretamente.

*Texto traduzido de https://brianzahnd.com/2014/02/problem-bible/