O desafio de ser crente

É muito fácil fazer alguém levar meu código a sério. O desafio é tentar oferecer algo mais profundo do que a minha lógica pode explicar quando um amigo precisa mais de esperança do que de fatos.

Posted by fellipe on August 14, 2014

Em Abril eu estive em uma das maiores conferências com desenvolvedores Ruby do mundo em Chicago. Todos os caras que eu admiro estavam lá. Os melhores desenvolvedores, palestrantes, empreendedores… As mentes mais criativas e impressionantes da minha profissão estavam lá.

Me senti pequeno no meio de tanta gente boa. E é claro, serviu como inspiração para me tornar melhor, para estudar mais e para melhorar o serviço que eu entrego para os meus clientes e a equipe que eu gerencio.

Colocando de lado toda a parte técnica, algo me chamou a atenção. Como eu já deixei claro aqui no meu blog, eu sou apaixonado por estatísticas. Sendo assim, quando eu vi que havia um questionário anual, preenchido pelos frequentadores dessa conferência, eu prontamente preenchi ele e fui conferir os resultados. [http://www.ruby-survey.com/stats].

Muitos dados técnicos me chamam a atenção aí, falo sobre eles no meu outro blog, em que escrevo sobre código: [http://code.fellipebrito.com/]. Neste post eu quero falar sobre um outro número que me chocou: “What are your religious beliefs?/Quais são suas crenças religiosas”. Os números são chocantes para um país considerado cristão: - em 2012 19% eram monoteístas, um número 4% menor do que em 2009. - em 2012 68% eram ateístas ou agnósticos, um número 6% maior do que em 2008.

Mais tarde este ano, em um evento menor, com profissionais da mesma área e que algumas vezes dividem os mesmos projetos que eu, num total de aproximadamente 40 pessoas, eu fui o único a falar: sou cristão.

Quando eu defini isso como um desafio: [https://twitter.com/fellipeeduardo/status/459763556112535554], fui questionado pelo Roy [https://twitter.com/roy] o que seria “tão desafiador”. Admito que a pergunta dele me deixou ainda mais “desafiado”. Tentarei me explicar nos próximos parágrafos.

Na maioria das conversas, artigos que leio, ou exposições de pensamento em redes sociais, o que se sente é que ser ateu ou agnóstico virou um “status”. É sinonimo de ser inteligente. Adaptando a famosa conclusão de Descartes, “Sou inteligente, logo sou ateu“.

Ao fazer um experimento e enviar SMS para toda minha lista de contato dizendo “Deus não está morto”, recebi como resposta dois comentários interessantes, em menos de 30 minutos: - Se ele não está, com certeza ele não dá a minima para o Brasil. - Isso não foi o que Nietzsche falou.

As inúmeras e catastróficas decisões, afirmações e atitudes da igreja evangélica nos últimos 50 anos servem ainda mais para fortalecer essa conclusão. O cérebro de um crente é menor que o do Homer Simpson.

Lógico que eu exagerei em ambas as afirmações acima, mas guardadas as devidas proporções, é o que é claramente divulgado e “pensado em voz alta” em redes sociais. Ao mesmo tempo que eu fiquei impressionado com o resultado da pesquisa na conferência, outros comemoravam o fato da “ciência, fato e não ficção” estarem vencendo a “luta” na comunidade de desenvolvedores que eu pertenço [https://twitter.com/chrishough/status/459767149918052352].

Eu procuro viver minha fé sempre. Não sei de um amigo ou companheiro de trabalho que não tenha ouvido pelo menos uma vez a respeito da minha fé. Vez ou outra compartilho com amigos próximos os detalhes sobre minha fé, e sempre que questionado, procuro responder o porque das minhas atitudes e a razão da minha fé.

A maioria destas pessoas eu respeito muito. São excelentes profissionais e empreendedores. Pessoas capazes, bem treinadas, dedicadas e sempre com algo a me ensinar sobre como ser um profissional melhor, e até sobre como enfrentar as dificuldades dessa vida maluca. É sempre um desafio explicar para eles o porque eu acredito no carpinteiro crucificado, no Deus encarnado, no Gênesis e no julgamento final.

Não são poucas as vezes que eu anoto ao lado as perguntas e os questionamentos lógicos que eles fazem, e vou eu mesmo procurar as respostas, ver os debates e o que gente mais inteligente do que eu fala sobre isso.

Estou longe de querer convencer todos a seguirem minha fé. E não acredito que eu tenha a resposta para todas as perguntas.

Entretanto, num mundo sem fé e sem esperança no pós vida. Numa comunidade cheia de razões e certezas. Num ambiente onde sempre conseguimos resolver algo com lógica. Num país onde as taxas de suicídio tem índices cada vez mais alto. Numa sociedade em que o próximo só é importante se ele te oferecer algo em troca… eu sinto sim que é desafiador continuar sendo um crente.

Então respondendo a pergunta do Roy “What’s the challenge you’re facing exactly? Do others not take your code seriously?” “Qual o desafio que você tem enfrentado? As pessoas não levam seu código a sério”… eu respondo.

É muito fácil fazer alguém levar meu código a sério quando o simplecov acusa 100% de coverage, e o CodeClimate me dá nota A em 95% dos meus projetos…

O desafio é tentar oferecer algo mais profundo do que a minha lógica pode explicar quando um amigo precisa mais de esperança do que de fatos.

O desafio é ser uma “testemunha viva” de algo que tem sido considerado cada dia mais obsoleto, falta de inteligência e superstição.

O desafio é ser um tempero interessante em um mundo que é cada vez mais “receita pronta”.

O desafio, como Carl Sagan, um “santo” dos ateus e agnósticos, sabiamente falou em seu livro, é tentar ficar quieto…  “Porque eu não posso. Eu… tive uma experiência… Eu não posso provar isso, Eu não posso explicar isso, mas tudo que eu sei como ser humano, tudo que eu sou me diz que isso foi real! Algo maravilhoso me foi entregue, algo que me mudou pra sempre… Uma visão… do universo, que nos diz, inquestionavelmente, o quão pequenos e insignificantes nós somos e o quão… raro e preciosos nós somos! Uma visão que nos diz que pertencemos algo maior que nós mesmos, e que não estamos sozinhos! Eu desejo… Eu… gostaria muito de poder compartilhar isso… Eu gostaria que, cada um, mesmo que por um… momento, pudesse sentir… esse temor, e humilhação, e paz. Mas … isso continua sendo apenas o meu desafio.”