Os amigos virtuais e a solidão

Eu ainda lembro bem da primeira vez que isso aconteceu. O momento em que eu comecei a contar uma história para alguém e falei “certa vez um amigo meu…”, segundos após começar a contar a história, eu me recordei que não era um amigo meu, mas um dos participantes de um dos podcasts que eu ouço regularmente.

Posted by Fellipe Brito on August 7, 2015

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Eu ainda lembro bem da primeira vez que isso aconteceu. O momento em que eu comecei a contar uma história para alguém e falei “certa vez um amigo meu…”, segundos após começar a contar a história, eu me recordei que não era um amigo meu, mas um dos participantes de um dos podcasts que eu ouço regularmente.

Foi uma sensação bem ruim, começar a perceber que a vida já não era mais com aquela turma do colégio e que as vozes que eu ouço semanalmente não são de amigos próximos, mas de participantes de podcasts que eu nunca conheci pessoalmente. Que os amigos que cresceram juntos tomaram rumos diferentes.

Eu sempre amei ter amigos, pessoas próximas, que compartilham a vida. Sempre imaginei que minha vida seria ao redor de uma lagoa, compartilhada com amigos que “cresceram, casaram e tiveram filhos juntos” e permaneceram no mesmo lugar. Mas a vida não foi assim. Passaram os amigos da primeira escola, os amigos da igreja, do segundo grau, da banda de rock da adolescência e a vida foi ficando mais parecida com um rio levado pela correnteza.

Eu que gosto tanto de conversas altas e longas durante a madrugada. Eu que gosto de tocar e abraçar tive que me contentar com o fato de que meus melhores amigos conversam comigo por texto, enquanto eu #rioAlto bem baixinho no whatsapp e no facebook. Carrego meus melhores amigos no meu “bolso”, e compartilho o que eu vejo na vida através do instagram. Eu que nunca gostei de um Tamagotchi, hoje coleciono “amigos virtuais”.

Há 30 meses que a maior mudança de todas aconteceu. E, durante estes 30 meses, eu me peguei esperando “a vida voltar ao normal”. Eu tinha uma lista de coisas que eu queria que acontecessem para que a vida voltasse ao normal. Eu queria churrasco, video game, praia, surf, móveis, home office, meus canais de tv, restaurantes, um time favorito, lugares secretos, médico, petshop, e tantas outras coisas que eu listei nesse texto que escrevi em 2013.

A cereja do bolo foi receber meus pais aqui em casa, dividir com eles a “minha cidade”. Agora, 30 meses depois, Los Angeles tem diversos “Secret Spots”. É a minha cidade, é o meu lugar. E tem sido fantástico ter condiçõetrar tudo isso para os meus pais. Tem sido a última página de um capítulo cheio de aventuras, lágrimas e sorrisos.

Mas fechar esse capítulo não significa o fim da história, e esta foi uma realidade para a qual eu acho que não estava preparado. A história não acabou aqui. Uma nova parte da história, completamente diferente, começa a ser escrita agora. Não há muito “desconhecido” nessa parte da história. Eu já sei as regras, eu já conheço o plano e nada chega perto ao que foi o “salto no escuro” que demos 30 meses atrás, e eu acho que isso me assusta: a certeza de que não vai voltar a ser como era.

A solidão se tornou uma companheira que veio pra ficar. O fato de ver meus pais virem a minha casa e vivermos dias tão atípicos me confirma que o café na casa deles, numa quinta chuvosa, após um dia dificil, não irá acontecer tão cedo. Enquanto saboreamos um café em Beverly Hills, ou dividimos uma gelada em Hollywood, ou ainda enquanto molhamos o pé no pacífico em Malibu… tudo isso é espetacular mas não afasta a falta que faz um bom arroz com ovo no domingo do grande premio do Brasil de Formula 1.

Os amigos que vieram nos visitar também deixaram essa sensação. Conseguimos dividir experiências incríveis, é sempre bacana ver os olhos de um brasileiro que pela primeira vez vê a montanha de Hollywood, ou que sai andando e fotografando duas em cada 3 estrelas na calçada da fama. Mas ao final da semana, quando eles pegam o avião de volta ao Brasil eu realizo que eu vi os olhos deles brilharem por experimentar experiencias incríveis, mas eles não verão meus olhos encherem de lágrimas nos dias que a vida me oferece mais porrada do que aperto de mão.

A solidão torna-se sua companheira quando você sabe que embora possa planejar o próximo natal, aniversário ou outro evento “importante” rodeado de amigos, ainda terá que sentar sozinho no meio fio, na próxima vez em que enfrentar um problema.

Esse não é um texto pra terminar com mensagem positiva ou lição de moral. No meu texto em 2013 eu disse que compartilharia aqui minhas experiências, e acho que desde aquele texto eu estou esperando para fechar esta primeira parte do livro. Hoje ele acabou. A próxima parte será com certeza cercada de “amigos virtuais” mandando mensagens positivas pelo whatsapp, mas será de solidão física. Será uma parte com muito mais SMS do que abraços, e eu não estava preparado para entender isso.

Espero poder assimilar bem essa nova parte da vida, aprender com ela e que Henri Lacordaire esteja certo quando disse:

É a solidão que inspira os poetas, cria os artistas e anima o génio.