Raio X

Era como se ele pudesse de alguma maneira saber que por trás dos fios das 32 camêras da segurança do local, cuidadosamente distribuídas de maneira que nenhuma coluna ou porta gerasse um ponto cego, eles o estavam observando. Jamais se esquecera daquele dia no banco, que por um descuido da atendente, ele pode observar em seus documentos a classificação com asteriscos: Alien. Desde então não havia um dia em que ele conseguisse se livrar da certeza de que estava sendo vigiado. Não seria diferente agora.

Posted by Fellipe Brito on October 23, 2015

Raio-X-1

Era como se ele pudesse de alguma maneira saber que por trás dos fios das 32 camêras da segurança do local, cuidadosamente distribuídas de maneira que nenhuma coluna ou porta gerasse um ponto cego, eles o estavam observando. Jamais se esquecera daquele dia no banco, que por um descuido da atendente, ele pode observar em seus documentos a classificação com asteriscos: **Alien**. Desde então não havia um dia em que ele conseguisse se livrar da certeza de que estava sendo vigiado. Não seria diferente agora.

Após duas semanas seguidas aquele incomodo no ombro o levara até essa situação. “- Sala 120B”, resmungou a atendente, “é a próxima sala, seguindo por aquele corredor com a porta já aberta”.

A direção era um tanto estranha, afinal, as cinco pessoas atendidas anteriormente haviam sido instruídas a permanecer na nada confortável sala de espera, lotada de cadeiras verdes, já devidamente ocupadas por pessoas tossindo e uma TV que mostrava algum programa matinal onde o apresentador jurava ter uma forma nova de emagrecer comendo hamburger. Mas não ele. Suas instruções eram para seguir até o fim de um corredor vazio e aguardar. Mesmo contrariado ele acatou as instruções e seguiu.

“- Senhor, senhor! Por favor seu cartão de saúde e sua identidade”, o calor incomum nessa época do outono parecia estar mexendo com a paciência da atendente, que fazia questão de demonstrar o mau humor.

“Maldito Stark!”, ele pensou. Desde a famigerada explosão em Stamford, a discussão sobre o registro de superhumanos vinha ganhando proporções inesperadas. Ele entregou os documentos e procurou se distrair usando o celular, esperava não ser identificado logo agora. Gastara os últimos anos tomando todas as precauções necessárias para certificar-se de que, aos olhos de todos, ele seria apenas mais um.

Já na sala de espera 120B, completamente vazia, ele ouviu os passos que vinham pelo corredor. Não era possível que médicos usassem aquele tipo de sapato. Eram botinas pesadas, provavelmente alemãs. O som uniforme dos passos demonstrava também uma atípica disciplina que derivava muito mais de quartéis do que dos consultórios. “Pense rápido”, repetia para ele mesmo. Os passos se aproximavam e ele tinha não mais que poucos segundos. Escorregou por baixo de uma mesa, virou a direita no estreito corredor e aproveitou para pegar um jaleco que estava pendurado em uma cadeira. Vestiu-o rapidamente, ainda a tempo de ouvir um dos funcionários exclamar -Ele não está aqui, temos que achá-lo, não podemos perder tempo!.

De jaleco verde e com todo o cuidado para tentar se confundir em meio a massa de funcionários, pegou o primeiro elevador aberto, logo ao fim do corredor. “Calor de Marte!” -reclamou a enfermeira. Com o último blockbuster que explodira nos cinemas recentemente, qualquer referência a Marte não era mera coincidência.

A descida do elevador tomou poucos segundos, todos estavam indo para o primeiro andar, hora de se desfazer do jaleco e tentar achar a porta de saída. Mas este não era o mesmo elevador por onde ele viera, e ele confundiu-se com os corredores, que pareciam todos iguais. Decidiu pegar o primeiro corredor a esquerda e o próximo a direita. “SALA DE RAIO X – Exames em andamento, bata antes de entrar”. Tantas voltas e ele acabara se encontrando exatamente no lugar de onde tanto fugira. “Meia volta, acelere seu passo, seja discreto”, esse costume de falar consigo mesmo vinha desde sua infância. “Senhor Pereira? Eduardo Pereira?”. Seu corpo gelou, por um instante ele pensou em correr, gritar por ajuda, ou fazer de conta que não era com ele. Usar seus poderes estava fora de cogitação. Não aqui, não nesse lugar lotado de cameras. Ele voltou-se e encarou seu examinador. 1.60 de altura, oriental, sotaque sofrível – não haviam dúvidas, ele estava sendo catalogado.

“Por favor, fique parado, de costas, nao se mexa. Não vai levar mais que 5 segundos” – Klapuft! – Pronto, agora haviam 3 imagens diferentes de raio X que revelariam o que todos queriam saber e ele precisava esconder. “Seus exames serão enviados ao ortopedista, o Senhor precisa apresentar-se para a consulta na segunda as 11 da manhã”. – Ortopedista, o mesmo tipo de médico que havia identificado os ossos flexíveis do Homem Borracha, e as teias escondidas na mão de Peter, quando ele foi consultar uma unha quebrada. Tudo fazia ainda mais sentido.

Sua mente ainda rodopiava enquanto caminhava para a saída e pensava em como conseguir botar as mãos naquele Raio X antes do ortopedista. Olhou de soslaio à atendente, que com um sorriso diabólico murmurou: -Vejo você na segunda, Senhor Pereira, como que para se certificar de que, além de ter que voltar na segunda, ele já havia sido devidamente catalogado.