Bíblia

De jeito nenhum, Senhor!

por Fellipe Brito

Escrito23 de outubro de 2026
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Ela é crente. Gente boa mesmo. Ora todo dia. Está sempre lá pra quem precisa e conhece a Bíblia melhor que alguns pastores. Não só isso, ela vive a Bíblia melhor do que eu vivo nas nossas melhores semanas.

Mas ela faz tudo isso vestindo a camisa verde e amarela da seleção enquanto torce por ele.

O homem que a gente viu debochar de quem morria sem ar na pandemia, homenagear torturador em rede nacional, prometer metralhar os adversários do palanque. Ninguém inventou isso. A gente viu os vídeos. Ela viu os vídeos. E ela segue por aí ganhando convertidos pra ele, e chama isso de fidelidade.

Ele é meu amigo também. Tão sério com o Reino de Jesus quanto ela, talvez mais. Ele jejua, serve os necessitados e perdoa gente que eu não perdoaria.

Mas ele vota no Lula, toda santa eleição, cantando música e fazendo passeata.

Pelo partido que transformou corrupção em projeto de poder, que chama de democracia na Venezuela, na Nicarágua e em Cuba exatamente aquilo que diz combater aqui, que trata a fé que ele diz amar como atraso a ser administrado. Ele leu as mesmas manchetes que a gente. E segue pregando a causa deles assim mesmo, e chama isso de fidelidade.

Mesma Bíblia, mesmos versículos, mesmo Jesus.

E eu fico ali, confuso: como é que esse meu amigo, essa pessoa que eu sei que ama Jesus e o Reino dele, consegue ser tão cego?

Eu tenho orado por eles. Sério.

Senhor, abre os olhos dela,
amolece o coração dele...

e ultimamente a oração fica fazendo o retorno e voltando pra mim. Como se o Espírito tirasse a frase da minha boca no meio do caminho e devolvesse com o meu nome escrito nela.

Quem é o meu Lula? Qual é o Bolsonaro em quem eu voto?

A pergunta não me larga. Eu tô lavando louça e ela tá lá. Tô dirigindo e ela tá lá:

O que é que eu ando louvando que Jesus nunca me pediu pra louvar? Pra quem é que eu ando ganhando convertidos?

Por que você encara o cisco no olho do seu amigo, Jesus me pergunta, se no seu tem uma trave que você já aprendeu a contornar com o olhar?

Porque pensa comigo: se ela consegue amar Jesus daquele jeito e ainda assim ser cega daquele jeito, então amar Jesus não protege a visão de ninguém. E eu amo Jesus. Então o que é que eu não tô vendo?

Nessas horas, eu gosto sempre de voltar para as Escrituras, então pega sua bebida preferida, senta confortável e vem comigo.


Pedro tá com fome.

Ele está em um terraço em Jope, perto do meio-dia.

Sol na nuca, cheiro gostoso de almoço subindo, a fome apertando, ele conta os minutos, e enquanto ele espera, ele tem uma experiência. Uma visão. Um sonho. Escolha a palavra que achar melhor pra definir o que ele viveu. Mas segundo o relato, ele viu algo:

Desce um lençol do céu, cheio de bichos, cada um deles alguma coisa que a tradição dele, a família dele, a vida inteira dele ensinou a nunca tocar. E uma voz diz: levanta, mata e come.

Pedro diz não. Pra Deus!

“De jeito nenhum, Senhor.”

Três anos andando com Jesus, ele viu tudo que a gente leu. Jesus andando sobre o mar, curando gente, ressuscitando amigos e depois ele mesmo voltando dos mortos. E ainda assim Pedro resistia a caminhar em direção ao lugar pra onde Deus queria levar. E a parte assustadora: ele não tava se rebelando. Ele tava convicto.

O ponto cego parecia fidelidade.

Isso não é exclusividade de Pedro. Jonas ficou furioso porque Deus perdoou a cidade que ele odiava e acusou Deus de ser… bom: “eu sabia que você era generoso”.

Tiago e João, diante de uma vila samaritana que os tratou mal, rapidamente perguntam pra Jesus: “quer que a gente mande descer fogo?”

E Jesus repreende… não a vila. Eles.

Esses homens aí não eram gente qualquer. Eles eram seguidores de Jesus, convictos de que estavam fazendo a coisa certa: a pedra, o profeta e o círculo íntimo do Mestre.

Se eles conseguiram construir um deus que odiava as pessoas certas e abençoava o lado certo, eu não tô acima disso. Eu só não consigo enxergar o meu. E é exatamente isso que faz ele ser meu.


Eu conheço o mandamento.

Não terás outros deuses, não farás imagem de escultura.

Eu sempre imaginei uma estátua. Um “santo”.

Mas eu nunca imaginei que um deus que vota como eu, odeia quem eu odeio, assina embaixo de como eu gasto meu dinheiro e de como eu brigo com os outros é uma imagem que eu construo. Mesmo sem estátua e sem vela acesa… eu estou me ajoelhando na frente de um outro deus, uma imagem.

Um espelho com o meu nome.


Então aqui vai o meu convite pra você, e ele não é fácil.

Olha para a sua caminhada, as últimas semanas, ou meses, ou anos… e tente lembrar quando foi a última vez que Jesus e você discordaram. Sim, discordaram.

Tente lembrar, com clareza, da última vez que você precisou “redefinir Jesus”.

Em que ele te convidou a fazer algo inesperado, diferente. Algo que sua primeira reação foi dizer: “de jeito nenhum, Senhor”:

  • a porta que você não queria atravessar,
  • a pessoa que você preferia ver punida em vez de perdoada,
  • o comportamento que você tinha certeza que era correto, mas que estava errado o tempo todo.

Se você não achar nenhum… pode ser que o deus que você segue nunca te leve a lugar nenhum.

Ele só concorda.

E um deus que só concorda comigo não é Deus, é espelho.

Idolatria!

O pecado mais famoso dos dez mandamentos, sem nunca ter uma estátua em casa.


Eu ainda me surpreendo quando vejo irmãos em Cristo tão cegos a respeito de algo que é tão claro pra mim.

Mas eu estou muito mais preocupado com a minha própria miopia.

Que Deus tenha misericórdia de nós
e, em sua graça, abra nossos olhos.