Lá por volta do ano 1200, os construtores da Catedral de Chartres desenharam um labirinto no chão de pedra da nave. Um labirinto tem um caminho só, sem becos, sem curvas erradas. Você entra, vai serpenteando até o centro, e sai pelo outro lado. Os cristãos medievais caminhavam por ele como oração, alguns dizem que como substituto de peregrinação quando Jerusalém tava fora de alcance. O caminhar em si era a oração.
Comecei a montar a minha oração diária. Eu sabia que queria um caminho pronto. Algo que eu pudesse percorrer toda manhã sem precisar decidir nada. No fim, descobri que tava reinventando uma ideia de 800 anos, o que geralmente é bom sinal.
Então aqui vai o convite: caminha comigo uma vez. Um jardim imaginário, desenhado como aquele chão de catedral. Depois de hoje você não vai mais precisar desse artigo… o mapa vai estar na sua cabeça, e você pode ir direto pras orações.
Encontrando o Jardineiro
Nosso Deus é um Deus de jardins. A história começa num jardim, o Éden, com Deus caminhando por ele na brisa do fim do dia. E quase termina num também: Maria confunde o Jesus ressuscitado com o jardineiro, e sabe? Ela não tava de todo errada. E as últimas páginas da Escritura não nos levam de volta a um jardim, mas adiante, pra uma cidade-jardim, com a árvore da vida crescendo no meio da rua.
Então antes de caminhar pra qualquer lugar, a gente para no portão e cumprimenta aquele que plantou tudo isso:
Deus Pai, criador do céu e da terra,
Deus de Abraão, Isaque e Jacó,
Deus de Israel,
Deus e Pai do nosso Senhor e Salvador Jesus Cristo...
tem misericórdia e ouve a minha oração.
Ninguém entra no jardim dos outros sem mais nem menos. Você é recebido.
O caminho de entrada
O portão se abre com palavras emprestadas, porque às 6 da manhã eu ainda não tenho as minhas:
Senhor, abre os nossos lábios.
E a nossa boca proclamará o teu louvor.
Ó Deus, apressa-te em nos salvar.
Senhor, apressa-te em nos ajudar.
Agora escuta. O primeiro trecho do caminho é silencioso, e esse silêncio tem uma função: é onde você percebe os detritos. Folhas mortas, coisas que você fez, coisas que deixou de fazer. A Confissão é a parte da caminhada em que você se ajoelha, com as mãos na terra mesmo:
Confessamos que pecamos contra ti
em pensamento, palavra e ação,
pelo que fizemos
e pelo que deixamos de fazer.
Não te amamos de todo o coração;
não amamos o nosso próximo como a nós mesmos.
Aí você levanta, bate a poeira dos joelhos, e diz aquilo em que acredita. O Credo dos Apóstolos é a treliça do jardim inteiro, a estrutura onde todo o resto cresce: criador do céu e da terra, crucificado sob Pôncio Pilatos, ressuscitado ao terceiro dia, a ressurreição do corpo.
Mais pra dentro, o caminho se abre nos salmos, e é aqui que os sentidos assumem. Eu oro esses salmos n’A Mensagem, a tradução do Eugene Peterson, porque ele faz você sentir o cheiro deles:
Deus, meu pastor! Não me falta nada.
Você me deita em campos verdinhos,
me leva pra beber em águas tranquilas...
Você me serve um banquete de seis pratos
bem na frente dos meus inimigos.
Você levanta minha cabeça caída;
meu cálice transborda de bênção.
E pelas pessoas que você ama, o Salmo 103, que parece uma caminhada por uma fileira de árvores frutíferas:
Ele perdoa seus pecados — todos eles.
Ele cura suas doenças — todas elas.
Ele te coroa de amor e misericórdia — uma coroa do paraíso.
Ele te envolve em bondade — beleza eterna.
Quando você chega no Pai Nosso, o pedido já virou coisa simples e concreta:
Sustenta a nossa vida com o pão de cada dia.
Mantém-nos perdoados por você e perdoando os outros.
Guarda-nos de nós mesmos e do Maligno.
Você provou, tocou e escutou o caminho até o centro. É esse o propósito da entrada longa. Você chega preparado.
O centro
Aqui o roteiro para e você ora com as suas próprias palavras: petições, intercessões, as pessoas que você carrega. Eu costumava começar minhas orações aqui, no frio, e elas saíam sem forma. Agora o jardim já fez esse trabalho por mim. Quinze minutos de oração emprestada te ensinam a pedir antes de você pedir.
O caminho de saída
Você não sai por onde entrou. O caminho de saída é sobre missão. Primeiro a Oração ao Cristo Crucificado:
Senhor Jesus, tu estendeste os teus braços de amor
sobre o madeiro da cruz,
para que todos pudessem alcançar
o teu abraço salvador...
Depois a oração erroneamente atribuída a São Francisco (ela veio de uma revista francesa de 1912, mas mereceu a associação):
Senhor, faz de mim um instrumento da tua paz.
Onde houver ódio, que eu leve o amor.
Onde houver ofensa, o perdão.
Onde houver dúvida, a fé.
Onde houver desespero, a esperança.
...pois é dando que se recebe,
é perdoando que se é perdoado,
e é morrendo que se nasce para a vida eterna.
Essa é a postura que você carrega pelo portão. E uma pequena oração vai com você, a Oração de Jesus, dez palavras que a igreja do Oriente repete há quinze séculos:
Senhor Jesus Cristo, Filho de Deus, tem misericórdia de mim.
Fala ela no trânsito. Fala antes da reunião difícil. O jardim continua com você.
Sua vez
Esse é o mapa completo: um caminho de entrada, um centro, um caminho de saída. Você já caminhou por ele uma vez, então amanhã pula esse artigo e vai direto pro caminho em si: a Oração Diária completa — cada oração, em ordem, marcada pelo lugar dela no jardim.
Dez minutos. O mesmo jardim, toda manhã. Te vejo no portão.