Parte 03 de 5
A Coisa Toda é Uma Revelação Lenta
Sabe o embaçado no espelho do banheiro? Quando depois de um banho quente você passa a mão e dá pra mais ou menos ver um rosto. Uma silhueta. Você sabe que tem alguém ali. Mas não com nitidez. Segura essa imagem.
Paulo - o cara que escreveu um bom pedaço do Novo Testamento - ele diz ler a Bíblia é mais ou menos assim. "Vemos como por espelho, de maneira obscura" (1 Coríntios 13:12).
Talvez você já tenha entrado nessa biblioteca antes e teve a mesma experiência. Nomes que você não conseguia acompanhar. Regras sem sentido. Um Deus que parecia uma coisa aqui - e algo totalmente diferente ali. Você não está louco. Você não é burro. Tem um motivo pra ter parecido isso. Deixa eu te mostrar com uma história.
Lá pro fim de Lucas (Lucas 24:13-35) tem duas pessoas andando. Estão saindo de Jerusalém, em direção a um vilarejo chamado Emaús. Onze quilômetros de caminhada - E eles estão arrasados.
O texto dá o nome de um deles: Cleopas. O outro, ele deixa em aberto. Então você pode imaginar eles como você quiser. Eu? Eu imagino um marido e uma esposa voltando pra casa depois do pior fim de semana da vida deles.
Porque O CARA deles acabou de morrer. Jesus. Ou quem eles achavam que era o cara. O que ia consertar tudo. E, em vez disso, os romanos pregaram ele numa cruz na sexta - e acabou.
Presta atenção nas palavras exatas que eles dizem. "Nós esperávamos... que fosse ele" (Lucas 24:21). Esperávamos. Passado. É o som de um sonho morrendo.
E enquanto eles estão no caminho pra casa - um estranho entra no ritmo de caminhada ao lado deles e pergunta do que eles estão falando. E eles não acreditam. "Você é o único no país que não sabe?" Aí eles contam tudo pra ele.
E o estranho basicamente fala - vocês estão lendo tudo errado. E então ele começa lá do comecinho - Gênesis, Êxodo, os primeiros livros, os ligados a Moisés - e vai avançando. Pelos livros de história - Rute, Samuel e pelos grandes profetas - Isaías e Jeremias... todos eles. A biblioteca toda. A escritura que eles tinham lido a vida toda. E ele mostra que tudo estava apontando exatamente pro que acabou de acontecer. Onze quilômetros disso de conversa.
Quando já está escurecendo, eles chegam no vilarejo e eles imploram pra ele - fica. Come com a gente. Aí eles sentam. E o estranho... pega o pão. Abençoa. Reparte. E - boom! Eles reconhecem esse "estranho"... É ele. É Jesus. Ele está vivo. E aí ele some e eles largam a comida ali mesmo e voltam correndo pra Jerusalém pra contar tudo que aconteceu.
Pensa comigo, naquela fração de segundo - como é que eles souberam que era ele? Eu acho que É porque Ele sempre fazia aquilo. O pão. A bênção. O repartir. Eles tinham visto as mãos dele fazerem aquilo dezenas de vezes. Era o jeito dele.
Você reconhece a sua mãe pelos passos no corredor antes mesmo de ela entrar no quarto. Você reconhece a risada do seu melhor amigo do outro lado de uma festa lotada e barulhenta. Você reconheceria a pessoa que você ama pelo jeito que ela fala o seu nome quando não tem mais ninguém por perto. Você não precisa ver o rosto. Eles reconheceram ele pelo jeito de repartir o pão.
De volta ao espelho embaçado - a Paulo. "Agora vemos como por espelho, de maneira obscura; mas então veremos face a face" (1 Coríntios 13:12). É isso que ele quer dizer. Agora - deste lado da história - ninguém vê Deus em alta definição. A gente pega um reflexo. Uma silhueta na névoa. A gente conhece "em parte." E isso não é um defeito. É o projeto inteiro dessa biblioteca.
Então aqui está a principal coisa que eu quero que você leve daqui. A Bíblia não é um livro de regras. Não é um monte de lições de vida aleatórias. É uma revelação longa e lenta de um personagem principal. E esse personagem é Jesus. É pra ele que a coisa toda está caminhando. É nele que o plot se sustenta.
Agora - cuidado. Isso não quer dizer bancar o detetive e caçar um código secreto de Jesus em cada versículo. Não quer dizer pular o que essas histórias de fato significaram pras pessoas que as ouviram primeiro. O Antigo Testamento é a história de Israel. E ela importa. Por si só. Mas a coisa toda está apontando, como uma flecha, pra ele.
Então, pra começar com a história, você começa onde a névoa é mais fina. Onde dá pra ver o rosto dele mais nítido. Você aprende o jeito dele ali - e aí você volta e começa a reconhecer ele. Da mesma maneira que Cleopas e a esposa reconheceram ele.
É tipo Star Wars. Você não começa pelo Episódio Um. Negociações comerciais e disputas de imposto. Qual é. Você começa pelo original. Você conhece o Luke. Você conhece o Vader. E aí - a revelação. "Eu sou seu pai."
E agora. Agora você volta e assiste os outros filmes e cada cena bate diferente. Porque você sabe no que essas pessoas se tornam. Você não conseguia ver na primeira vez. Agora você não consegue des-ver.
Então por onde a gente começa? Onde a névoa é mais fina? Tem um livro. E ele abre com exatamente as mesmas duas palavras do comecinho de tudo. "No princípio."