Fellipe Brito

Volta-te

Quero te contar como uma pergunta entrou na minha cabeça e não quis mais sair, e já aviso logo: essa série não responde ela. Faz tempo que eu desisti das respostas fáceis. O que eu quero agora são perguntas melhores, e essa aqui acabou sendo uma das boas.

Começou com Jonas, logo ele.

Jonas 4:2 é o versículo em que o profeta finalmente explica por que fugiu. Ele diz, mais ou menos: "Eu sabia. Eu sabia que tu és um Deus misericordioso, compassivo, muito paciente, cheio de amor leal, e que se arrepende do mal que tinha anunciado." Foi essa última parte que me parou. No hebraico é ve-nicham al-ha-ra'ah, "se arrependendo da calamidade." E não é um verbo descrevendo uma coisa que Deus fez uma vez. É um particípio. Descreve como Deus é. O Jonas tá dizendo: tu és um Deus que se arrepende, esse é o teu caráter, e é exatamente esse o meu problema contigo.

Aí eu fui cavar, e uns dias depois eu tava no Salmo 6, e no versículo 4 o salmista diz: "Volta-te, YHWH, livra a minha vida, salva-me por causa do teu amor leal."

Volta. Shuvah. É o mesmo verbo que os profetas usam quando mandam o povo se converter, o "Convertei-vos" das nossas Bíblias. Dá meia-volta, vai pro outro lado. E aqui tem um sujeito apontando esse verbo pra Deus.

Foi aí que a pergunta caiu. Se eu digo pra Deus voltar, eu tô esperando que ele volte? Oração é uma conversa em que o outro lado pode de fato mudar de rumo, ou é uma coisa que eu faço comigo mesmo, uma espécie de encenação, útil talvez, mas de mão única?

O tribunal

John Goldingay, no comentário curtinho dele sobre os Salmos, fala uma coisa sobre o Salmo 1 que reorganizou o jeito como eu leio tudo que vem depois. O Salmo 1 apresenta dois caminhos. Anda segundo a instrução de Deus e você floresce feito árvore plantada junto às águas; anda pelo outro lado e você vai embora com o vento, feito palha. Simples, ele diz. Não é fácil, mas é simples.

E aí, o Goldingay observa, o resto do Saltério tá cheio de gente que andou pelo primeiro caminho e não tá florescendo. E fala isso. "Tenho andado na minha integridade" (Salmo 26). "Tudo isso nos aconteceu, embora não tenhamos nos esquecido de ti" (Salmo 44). Então, ele diz, o Salmo 1 não só abre o livro, ele te dá legitimidade. Se você viveu a vida do Salmo 1 e tá enrolado, você pode chegar diante de Deus e dizer, na expressão do Goldingay, com licença, e aquilo que o Senhor disse no Salmo 1?

Comecei a imaginar isso como a corte de um rei. Os Salmos 1 e 2 são os termos, o acordo, e cada salmo depois disso é alguém chegando diante do trono com uma causa. Essa imagem é minha, não do Goldingay, e eu não tenho certeza se tá certa. A palavra dele é "promessas", que é mais suave que "acordo". Um acordo amarra os dois lados. Eu volto nisso depois.

Mas repara numa coisa no Salmo 6. O salmista ali não reivindica o terreno do Salmo 1. Ele não diz "eu fui fiel." Ele diz "por causa do teu amor leal." Dois motivos diferentes pra chegar diante do trono. Um é sobre mim, o outro é só sobre ele.

Quem volta pra quem

Eu fico voltando nesse verbo. Shuv é a palavra da conversão. É o que os profetas gritam pra Israel. E os Salmos 6, 80 e 90 pegam ela e apontam pro outro lado. "Volta, por favor, Deus dos Exércitos, olha lá do céu." O refrão do Salmo 80 é o mesmo verbo de novo, na outra direção: "Restaura-nos." Faz a gente voltar. Mesma raiz.

Então alguém nesse salmo tá voltando. A pergunta é quem.

E sinceramente? O Salmo 6 nunca diz. No versículo 7 o homem tá chorando, no versículo 8 ele anuncia que YHWH ouviu a sua oração, e nada no meio te conta o que mudou. Se foi Deus que voltou, ou ele, ou os dois.

Pra ficar pensando

  • Quando eu digo "volta" pra Deus, o que eu tô esperando de verdade que aconteça?
  • Já cheguei diante do trono com o argumento do Salmo 1, "eu fiz a minha parte"? Já fui só com o do Salmo 6, "por causa do teu amor"? Qual eu pego primeiro, e por quê?
  • No Salmo 6, entre o choro e o "ele ouviu", o que eu imagino que aconteceu?