Duas palavras, e as pessoas que usaram elas
Da última vez eu terminei num verbo. Deixa eu acrescentar o segundo, porque o Antigo Testamento quase nunca usa um sem o outro ali por perto.
Shuv quer dizer virar, voltar, retornar. É sobre direção, o que você faz com os pés.
Nacham é a palavra do Jonas. Se arrepender, ceder, se comover, mudar de rumo. É sobre o que acontece por dentro antes dos pés se mexerem. Mesma raiz de "consolar", inclusive, como em Naum, como em "consolem, consolem o meu povo" em Isaías 40. Ainda não sei o que fazer com isso, mas eu gosto.
Jeremias 18 te dá o padrão normal numa frase só: se uma nação se volta do seu mal, Deus se arrepende do desastre que tinha planejado. O ser humano se volta, Deus se arrepende. Essa é a gramática padrão.
E aí aparecem as orações que quebram a gramática e apontam os dois verbos pra Deus.
Moisés
Êxodo 32. O bezerro de ouro. Deus diz pro Moisés: "Agora me deixa em paz, pra que a minha ira se acenda contra eles", e se oferece pra recomeçar do zero, com Moisés como o novo Abraão.
Moisés não deixa ele em paz. Ele argumenta. Três motivos, mais ou menos: eles são o teu povo, foste tu que tiraste eles de lá; o que o Egito vai dizer de ti; e lembra do que tu juraste a Abraão, Isaque e Israel. Aí vem a frase: "Volta-te do furor da tua ira, e arrepende-te da calamidade contra o teu povo." Shuv e nacham, um atrás do outro, no imperativo, dirigidos a Deus.
Versículo 14: "E YHWH se arrependeu da calamidade."
Tem uma leitura rabínica desse "me deixa em paz" que eu não consigo parar de pensar. O Talmude (Berakhot 32a) diz que, se o versículo não dissesse isso, ninguém teria coragem de dizer, porque mostra Moisés agarrando Deus do jeito que você agarra um amigo pelo casaco, dizendo: eu não te solto enquanto tu não perdoares eles. O Salmo 106 lembra do mesmo jeito: Deus teria destruído eles, "se Moisés, o seu escolhido, não tivesse se colocado na brecha diante dele."
Na brecha. Guarda essa imagem.
Jonas
Agora coloca o Jonas do lado do Moisés, porque é a mesma cena rodada de trás pra frente.
Em Jonas 3, o rei de Nínive, um pagão, diz: que cada um se volte do seu mau caminho. "Quem sabe? Talvez Deus se volte e se arrependa, e se afaste do furor da sua ira, e a gente não morra." Essa é a oração do Moisés, quase palavra por palavra, saindo da boca do inimigo. E funciona. "Deus viu que eles se voltaram, e Deus se arrependeu."
O profeta hebreu, que sabe essa oração de cor, fica furioso porque ela funcionou.
Moisés ofereceu a própria vida pra que o povo fosse poupado: "risca-me do teu livro." Jonas pede pra morrer porque o povo foi poupado. Mesmos verbos, mesmo Deus, corações opostos.
Amós, e o "quem sabe"
Mais um, rapidinho. Amós 7. Deus mostra pro profeta gafanhotos devorando a terra. Amós diz: "Senhor, perdoa! Como Jacó vai aguentar? Ele é tão pequeno." Deus se arrepende. Depois, fogo. "Senhor, para! Como Jacó vai aguentar? Ele é tão pequeno." Deus se arrepende de novo. Depois um prumo, e Amós não diz nada, e Deus diz: dessa vez eu não vou deixar passar.
Duas vezes. Não três. Não sei por que o Amós ficou quieto na terceira.
Mas repara no motivo que o Amós dá. Não "Jacó é inocente." Só "Jacó é pequeno."
E repara no que o rei de Nínive diz. Não "Deus vai se arrepender." Quem sabe? Joel diz a mesma coisa, mesmos verbos: "Quem sabe? Talvez ele se volte e se arrependa." Davi, jejuando pelo filho que tava morrendo, também diz. Ninguém nessas histórias ora com uma garantia na mão. Eles oram com um talvez.
Então quando eu fico tentado a dizer que o Antigo Testamento ensina claramente que Deus pode e vai mudar de ideia, eu acho que os textos me dão o "pode". Não tenho certeza se me dão o "vai".
Os motivos que as pessoas dão
Em algum ponto do caminho eu comecei a listar o que as pessoas de fato dizem pra Deus nesses momentos, e virou um catálogo meio estranho. O teu próprio nome e reputação (Moisés). A tua própria promessa (Moisés de novo). As tuas próprias palavras sobre ti mesmo (Números 14, onde Moisés cita Êxodo 34 de volta pra Deus). O teu próprio amor leal (Salmo 6). A tua própria justiça (Abraão, barganhando por Sodoma: não fará justiça o Juiz de toda a terra?). A nossa pequenez (Amós). A minha fidelidade (Ezequias, Salmo 26, o terreno do Salmo 1 da última vez). E lá na ponta, argumento nenhum, só se voltar (Nínive).
Quase todos são argumentos que saem do próprio caráter de Deus e voltam pra Deus. O que é interessante, se a oração deveria ser eu fazendo ele mudar de ideia. Parece mais gente lembrando ele de quem ele já disse que era.
Ou talvez seja exatamente assim que mudar de ideia se parece. Eu sinceramente não sei.
Pra ficar pensando
- Quais desses motivos eu já usei? Qual pareceria presunçoso usar?
- Moisés agarrou Deus pelo casaco. Existe alguma coisa pela qual eu seguraria Deus assim, e não soltaria?
- O Jonas sabia o credo de cor e odiava o que ele significava pra Nínive. Existe alguém por quem eu, lá no fundo, preferiria que Deus não se arrependesse?
- "Quem sabe?" Eu consigo orar sem a garantia?