Duas mulheres
Então, Jesus. Se ele é Deus num corpo, e ele é, então o que ele faz quando alguém pressiona ele me diz alguma coisa sobre o que Deus faz. Duas histórias, as duas em Marcos, as duas com mulheres, as duas sem convite.
As migalhas
Marcos 7. Jesus subiu pro norte, pra território gentio, e Marcos diz que ele não queria que ninguém soubesse que ele tava ali. Uma mulher siro-fenícia acha ele mesmo assim. A filha dela tem um espírito imundo. Ela implora.
E ele diz não. "Deixa primeiro os filhos comerem; não é certo tirar o pão dos filhos e jogar pros cachorros."
Eu já li um monte de tentativas de suavizar essa frase e não acho que nenhuma funcione de verdade. É um não, e é um não com um insulto dentro.
Ela não discute com a imagem. Ela entra nela. "Sim, Senhor. Mas até os cachorrinhos debaixo da mesa comem as migalhas dos filhos."
Versículo 29: "Por causa dessa palavra, vai. O demônio já saiu da tua filha."
Por causa dessa palavra. O grego é dia touton ton logon, por causa dessa fala, dessa resposta, desse argumento. Outras Bíblias trazem "por causa dessa resposta", "por causa do que você disse". Jesus aponta o que ela disse como o motivo. Mateus conta a mesma história e troca essa expressão por "grande é a tua fé", que é o Mateus lendo o argumento dela como fé. Marcos deixa como as palavras dela.
Agora. Ele tava testando ela? Talvez. Ele faz isso em outros lugares, e o João até diz uma vez ("ele disse isso pra pôr ele à prova"). Era brincadeira, uma provocação com uma ponta afiada, do jeito que o Tom Wright lê? Talvez. Ele mudou de ideia de verdade? O texto não diz, e eu não vou fazer ele dizer.
O que ele diz é que um não declarado virou um sim, e que a dobradiça foi a frase dela. E eu reparo que ela não chegou pelo terreno do Salmo 1. Ela não disse "eu fui fiel." Ela pediu migalhas.
A orla do manto
Marcos 5. Uma mulher que sangrava havia doze anos, que tinha gastado tudo com médicos e só piorado. Ela pensa consigo mesma: se eu tocar nem que seja na roupa dele, eu fico boa. Ela vai abrindo caminho na multidão, toca no manto dele, e é curada. Na hora. Ela sente no corpo.
E Jesus, diz Marcos, sentiu que tinha saído poder dele e se virou. "Quem tocou na minha roupa?" Os discípulos acham que ele pirou: a multidão inteira tá te apertando, e você pergunta quem te tocou?
Essa é uma história de outro tipo. Nada muda a cabeça de Jesus aqui. Ele não decidiu nada. Ela estendeu a mão, e o poder tava... ali. Disponível. Pra ela e, pelo jeito, pra qualquer um. Marcos 6 diz que as pessoas imploravam pra tocar na borda do manto dele e "todos os que tocavam eram curados". Lucas 6: "saía dele poder, e curava todos".
Fiquei tentado a dizer que ela ativou alguma coisa, tipo um circuito. Mas uma multidão inteira tá tocando nele e só uma pessoa é curada, e quando ele acha ela, ele não diz "o teu toque te curou." Ele diz "a tua fé." E aí, a caminho de uma criança que tá morrendo, ele para e não sai do lugar até ela contar pra ele, diz Marcos, toda a verdade. Ele transforma uma transação numa conversa.
Então eu tenho duas histórias e não tenho certeza se elas dizem a mesma coisa. A primeira mulher transforma um não num sim argumentando. A segunda não muda decisão nenhuma; ela pega o que já tá ali. Oração como diálogo, e oração como acesso. Talvez sejam duas coisas diferentes.
O outro lado da mesma moeda
Tem uma imagem espelhada da história do manto, e ela tá logo no capítulo seguinte. Nazaré. Marcos 6:5, "não pôde fazer ali nenhum milagre", fora algumas curas, "e ficou admirado com a incredulidade deles". Mateus suaviza pra "não fez muitos". Marcos diz não pôde.
Eu também não sei o que fazer com isso. O mesmo poder que saiu pra uma mulher que agarrou o manto dele parece não ter tido pra onde ir numa cidade que não estendeu a mão.
E o próprio Jesus, no jardim, pede ao Pai que afaste o cálice, e o Pai não afasta. O único que orou perfeitamente na história ouve um não, e vai pra cruz dizendo "não o que eu quero, mas o que tu queres".
Da próxima vez, no último post, eu vou apresentar as três maneiras com que as pessoas tentaram juntar tudo isso. E depois, as perguntas.
Pra ficar pensando
- Já ouvi um não e achei a frase que virou ele? O que tinha na frase?
- Quando eu oro, eu tô argumentando ou estendendo a mão? Uma das duas é mais honesta pra mim agora?
- "Não pôde fazer ali nenhum milagre." O que significaria eu ser Nazaré?
- A mulher do manto foi atrás da cura e ganhou uma conversa que ela não pediu. Eu ia querer a conversa?